7/04/2009

HISTORIA FEITA POR LARA VERGARI!!!!!

BEIRA MAR.



Um.


A droga nova, a beira estrada. Era uma noite quieta, mais sossegada e escura do que o normal. Conseguia ouvir meu coração com grande facilidade, porém meus olhos tentavam, na dificuldade, restabelecer o quadro visual. Por instantes ouvi sons de quando se amassa a areia, mas não lhes dei ouvidos. Eram miragens realistas de cavaleiros altruístas.
- Vieram me buscar? -
Não se trocam sonoridades.
Subi medrosa o cavalo mais negro que já tinha visto. - Aonde vão me levar? -
Ainda nada. Atrevidos inquilinos beira mar!
- Respondam-me! -
De sombras obscuras, revelam-se olhos de pudor, e uma aparência de dor. Repletos de chamas internas.

Inferno.

- Que pecado! Tão jovem e já a dar satisfações ao Todo Poderoso?
Disseram que estava sendo muito apontada pelo judicial penal. –

“Inferno? Ainda quero viver!”

- Tenha calma senhorita! Ainda não é permanente. –
Dores frias na boca do estômago faziam-me inventar novas tonteiras, e como se não bastasse, a Lua começou a dar as caras, mostrando suas cicatrizes que reluziam de prata no mar. Em pouco tempo, aquela noite se transformou em uma das mais agitadas e claras. Algo ia acontecer. Uma noite não se transforma em vão.
- Com licença... Mas para aonde vou?
- Vamos. Nós vamos! Verás logo, terá um bom tempo de viagem para preparar seus olhos para o que verão. -
A viagem dava impressão de interminável, cada galope era um grito. Os galopes aumentavam e diminuíam a freqüência mas dentro, os gritos continuavam estridentes. "Eu quero beira mar!".

Mas, como é o cheiro do Inferno?
Fiquei curiosa.

- É tenebroso?
- De quem falas? Do senhor?
- Da sua terra. O Inferno.
- De tenebroso nada tem, a não ser que isso lhe convém. Cada um cria sua realidade.
- Criei a minha, e cá vieram me abortar sem avisos pra despedida! O que fiz? Nunca matei! Nunca maltratei! Sou puro amor! Sou alma livre! Bicho solto! - Revolta.
- Sabemos de sua curiosidade pelo abstrato, concreto, e desconhecido. Tem medo de desvendar o Inferno? Juro que não é tão quente assim!
- Não tenho medo.
- Sabemos, por isso viemos te buscar. O que você deseja descobrir nessa vida?
- A falta dela. Desejo a morte. –
Senti-me limpa, e já não desejava mais beira mar tanto assim.
- Tanta naturalidade diante dela?
- E porque não? Você é um cavaleiro do Inferno, e deve estar mais morto que uma pedra. Como se sente quando vê seu reflexo? Tanta naturalidade diante dela? -
Não houve resposta dessa vez, apenas uma risada afogada, digamos que até meio travada. Talvez estivessem rindo de seu próprio destino, ou lembrando-se de quando eram meninos, que como eu, viviam a sonhar.
- Trabalhamos com isso. Torna-se tão normal como quando você observa o sol e o luar em beira mar. Simples!
- Eu não trabalho, mas vivo com isso. -
- Porque a desejas tanto? -
- Não que seja uma necessidade, mera curiosidade de sentir. Pergunto-me... Como é partir? Vocês estão condenados a "viver" trabalhando pela morte, e eu, em descobri-la. Amo a vida. Ainda não chegou a minha hora. -
- Quem te disse que não?
- Quem te disse que sim? Só porque trabalhas com ela não significa que a conhece. A Morte é sua fonte de vida. -
Foi quando tentei ler seus olhos, mas não conseguia, possuía um brilho avermelhado pronto pra me cegar. Parece que a notícia escachada de serem servos daquele maldito trabalho tinha os deixado sem palavras. Dizem que as lembranças são coisas divinas, pois também acredito que sejam demônios, pronto pra te atacar assim que você bater em sua porta.
Eu costumava deixar os outros sem resposta por mera coincidência, mas admito que nunca pensei que meu jeito atrevido chegasse a esse ponto.
Aqueles demônios não me amedrontavam, por mais que sua aparência, voz, e energia fossem obscuras como uma caverna. Eu tinha meus segredos, e minhas magias.
- Cheia de si, pobre garota! Acho melhor para sua saúde mental parar com essas cuspidas questionadoras pra cima de nós. Sabe quem somos certo? Que tal nos respeitar? E aconselho também a ter um pouco de medo, ele ajuda bastante. –

Para não ter de levar adiante discussões com os sujeitos (que particularmente me são muito atrativos), me calei por um bom tempo. Como diz meu pai, o silêncio é sábio. Ou não.
Após muitos galopes, e muitos gritos internos ainda suplicando por beira mar, chegamos a um ponto da viagem em que se percebia que a praia estava para acabar, a minha praia. Beira mar.
- Vou até o mar me despedir, não vou demorar... Suplico!
- Que tola... Vá, vá! Não demore e não pense em fugir, castigos com você é o que menos queremos, sem marcas demoníacas. Agora vá! -
Agradeci e corri tanto que cheguei a cair nas areias. Nunca desejei tanto tocar as águas do mar, que de certa forma eram as mesmas de meu querido lugar. Pus-me a chorar e descobri que tinha medo. Medo de nunca mais ter, medo de nunca mais ver, medo de nunca mais sentir, medo de nunca mais sofrer, nem que fosse por amor.
Sem perceber que ainda existia o tempo, acabei demorando demais, chorando demais, mas na última pontada do coração, olhei pro mar e sussurrei, para que ninguém escutasse nossos segredos. – Eu vou voltar mar. Meu beira mar. Deve existir um irmão seu pelas terras aonde vou, tentarei de mandar beijos e palavras. –
Já sabendo que tinha demorado mais do que o “necessário” para uma “simples” despedida, voltei a correr, porém dessa vez me sentia mais fraca e cansada a cada passo. Aquele cheiro, aquela droga, aquele barulho, era sofredor! Mas eu tinha feito uma escolha, não agora, e nem quando vieram me buscar, essa decisão não pedia de mim muito tempo pra pensar, já estava pregado. Quando cheguei, sequei as lágrimas rápidas, como se elas representassem fraqueza (e representavam!), diante de simples gotas de sal, o que não cairia bem para quem há poucos minutos atrás estava a debochar de cavaleiros do Inferno.

Não.

- Estavas a chorar menina? – disse em tom debochado.
Deboche devia ser considerado crime!
Nada respondi, e simplesmente voltei ao meu lugar que já não estava mais quente como antes.



Dois.

Seguimos viagem.

- Isso vai demorar senhorita, podemos aproveitar pra conversar. Minha função aqui é te ouvir, e te analisar. Não vim de tão longe pra caminhar a cavalo, ou simplesmente te tirar a vida, acredite, por mais que seja prazeroso. – O vento soprou mais intenso naquele instante e em um gesto humano, o cavaleiro disse para si mesmo com expressões de alívio. – Meu Judas! Não sinto esse vento há tantos anos... Que saudade... –
Achei estranha tal adoração, mas deixo-o aproveitar o vento. Estava delicioso como algodão doce na primavera.
- Pra que há três cavaleiros se apenas você se comunica?
- Eles são muito prestativos nas horas adequadas. Não se incomode com eles, estão te protegendo.
- Protegendo-me?
- Claro! Há outras mortes querendo te levar, ou você acha que disputa só existe aqui?
- Que sensação... -
- Péssima sensação. -
- Mas me conte disso, sou curiosa, e como a viagem vai demorar de qualquer forma... Comece! – e soltei um sorriso de olhos pidão, sem querer.
- Olha lá! Não tente fazer meu coração bater de novo com esses seus olhos de cigana, consigo arrancá-los sem você perceber. -
- Desculpe... -
Fez uma tosse forçada e começou a atender meu pedido.
- Já percebeu que as pessoas têm maneiras diferentes de morrer, claro. Bom, somos enviados de nossos Mestres, cada um com o seu, e cada seu com cada morte. Há aqueles que morrem pacificamente, e outros que morrem tragicamente, e entre essas palavras existem uma infinidade de tipos de coisas, ou seja, tipos de mortes. Todo dia milhares de pessoas se vão, e temos de estar sempre acordados. -
- Posso fazer isso também? -
- E pra que? É um trabalho chato, pessoas chorando e reclamando de nós, dizendo que somos culpados de ter levado seus entes queridos, e na verdade a culpa é de quem conduz a vida. Só aparecemos quando a pessoa quer, ou quando ela faz de tudo para que isso aconteça. –

Depois dessa explicação, pensei, e realmente era o que eu queria. Morte. Quando chamamos muito uma coisa de nosso desejo, alguma hora ela aparece. Talvez o choro caiu e o medo apareceu nas areias pelo fato deu achar que ela nunca apareceria pra mim, já que em toda minha vida meus pedidos e chamados foram recusados, seja qual fosse o assunto.

- Vai me responder o que te perguntei?-
- Não me recordo. -
- Porque a desejas tanto? -
- Já te respondi essa, faça outra. -
- Aquela não foi uma resposta. -
- E porque não? -
- Ninguém que eu conheça deseja a morte somente por curiosidade. –
- Exato! Você não me conhece. –

Senti-me uma suicida muitas vezes enquanto conversava com o sujeito, ou até mesmo quando discutia disso com outros de minha rotina quando decidia me expressar. A morte não é necessariamente uma ação depressiva, infeliz... Do meu ponto de vista. Mas digamos que é como perguntar a um drogado se ele está viciado.

- Interrompendo um pouco seu objetivo de interesse, e partindo para o meu... Você tem nome? -
- Tenho, mas antes que me faças um olhar pidão novamente e eu tenha que te arrancar os olhos, já vou avisando que isso é restrito, talvez, quem sabe, quando tudo acabar, você venha a descobrir, e se não acabar, viverá na dúvida. –

Já tinha percebido que questionar um cavaleiro, servo da morte, não alimentava minha curiosidade como eu gostava, então, ao invés de usar palavras para descobri-lo, eu usava meus segredos, minhas magias. Enquanto a viagem percorria sedenta como sempre, comecei a mergulhar nas águas passadas de meus antigos moinhos que tinham cessado. Foi bom, como dar início a um filme. Sentar, assistir e degustar todas as cenas. Filme, fotografias inanimadas emitidas à inseminação artificial, como dizia meu companheiro Jim Morrison. Pra quebrar minha sintonia, avistei um lugar muito mais vermelho que o normal, pensei supostamente em um pôr do sol, mas ainda não era hora do despertador dele tocar. Quando penso no Inferno lembro-me de vermelho. Vermelho das chamas, vermelho do desejo, vermelho do proibido... Logo pensei que a viagem tinha chegado ao Fim, mas a expressão surpresa do cavaleiro não me deu essa certeza.
Ele olhou para seus dois companheiros e fez gestos de aproximação em minha direção, talvez fosse alguma outra morte querendo me pegar. Que encantador! Nunca me senti tão desejada em toda a minha vida.


Três.

- Feche os olhos.
- Eu quero ver!
- Agora não é hora de querer, me obedeça!
Fingir era uma de minhas artes, e assim fiz com meus olhos. Aproximamo-nos do vermelho possessivo e eu começava a sentir um grande desconforto na cabeça, pancadas internas que me faziam sentir cheiro de sangue e gosto de ferro.
- Sua desobediente! Vou te cegar!
E assim fez. A última coisa que enxerguei naquele momento foram raios entrando em minhas pupilas, achei que tinha sido brincadeira de mau gosto, mas me enganei. Entrei no mundo dos cegos, e quanto mais eu abria os olhos mais escuridão invadia-me. Comecei a gritar. – Pare de brincar comigo! Quero meus olhos de volta!
- Cale a boca! Fique quieta, seus olhos estão aí. Se eu ouvir uma palavra saindo de sua boca, juro por Judas que a costuro! Estamos passando por um lugar perigoso, se perceberem sua presença aqui você será devorada tão rápido que ainda achará que está galopando um cavalo e eu, vaiado pelo resto de meus dias.

Não me senti confortável naquelas doses de tempo, que foram rápidas, porém chicoteavam o meu consciente, tentando enganá-lo. Me senti nua e possuída, não entendia nada, e sem meus olhos pra analisar o contraste, tive que usar minha sensibilidade pra deduzir o que havia de ser. Ouvi conversas abafadas. Era uma voz desconhecida.

- O que fazes com essa mortal?
- O que um ser como eu faz com mortais?
- Mata.
- Já tens a resposta.
- Qual o nome dela?
- Porque está tão interessado nela? Ela é minha, não vê? Está sentada sobre um de meus cavalos, isso já há de lhe dizer algo, não acha?
- Desculpe Alteza, não quis ser questionador, nunca o vi rodando pela Terra nessas épocas, e muito menos com uma moça em um de seus cavalos negros, estava curioso.
- Guarde sua curiosidade, ou eu arranco o mal pela raiz. Vou te dar a liberdade de escolha.
- Sim, senhor.
- Agradeço. O que fazes por aqui? Alguém te solicitando?
- É. Um homem vai se suicidar daqui a algumas horas. Vim buscar sua alma.
- Bom saber, cuide dele, suicidas tem maiores oscilações de sentimentos.
- Sim, senhor. Obrigada pela dica.
- Como estão os outros?
- Sabe como é Sr. Mor...
- Não mencione meu nome.
O sujeito levantou uma das sobrancelhas estranhando o pedido, mas não ousaria ser questionador novamente, ainda queria ficar com o mal e sua raiz.
- Bom, continuando... Estão todos bem, trabalhando... Fizeste bem em nos dar ocupações, apesar de sentirmos falta das mordomias do Inferno, e de suas festas colossais, regadas a vinho, promiscuidade, céus de fogo, águas a rogo... Belo!
- Ahaha, essas festas são reveladoras, os segredos de cada um se abrem tanto como as pernas das mulheres. Trabalhem senhores, trabalhem! Logo há de vir às férias, e será uma baderna no Reino organizada especialmente, por mim.
- As ordens!
- Mande lembranças sinceras a todos de minha parte.

A energia em volta ficou mais leve, e me dava à impressão de que a vermelhidão já tinha desaparecido. A escuridão dava lugar ao embaçado, e o embaçado dava lugar a perfeição da visão, enquanto juntamente a isso minha boca ia se descosturando, ao qual enganada, não sabia que tinha acontecido isso com a pobre coitada. Estava um pouco possuída de raiva.

- Como ousas?
- Ouso tudo que quero garota. Fiz isso para o seu bem, nada mais, nada menos.
- Meu bem seria deixar-me cega enquanto quero ver, e calada querendo falar?
- Não quero ficar devendo explicações a você, pense no lado ruim, você ainda esta falando.

Soltei um riso sem querer, tinha adorado aquela piada de mau gosto, como sempre as minhas preferidas.

- Pois vou continuar... E continuar... E continuar...
- Já sabia dessa parte da história.




Quatro.

Um silêncio se apoderou do local, e minhas palavras começavam a fugir do coração, indo e voltando com cada respiração. Meu coração batia rápido, seu ritmo me parecia aquele de paixão.

- Quero te ver.
- Cá estou.
- De verdade. Seus olhos, sua boca, sua pele, suas expressões... Quero vê-las! – Parecia que aquela vontade estava mais forte do eu imaginara. Não compreendi. O cavaleiro pareceu extremamente tímido quanto ao meu pedido, e as minhas palavras. O silêncio vagou novamente entre nós e a distancia dos cavalos.

- Temos que continuar a viagem, a hora das revelações não é essa.
- Tudo bem, não fique nervoso quanto ao meu pedido!
- Eu... Eu... Eu não estou nervoso...
- É, esta tímido!
Por mais disfarçado que fosse seu sorriso, eu o avistei de longe, como quando avistamos a Lua no altar do céu. E por mais incompreensível que fosse novamente para mim, ele me cobria como um véu. Brilho de diamantes.
Parei de pensar um pouco em tudo que me rodeava, estava cansada, cansada de estar sentada, de pensar. Queria simplesmente me deitar e dormir um pouco, ir para o mundo dos sonhos por algumas horas... Estava sentindo falta daquilo, da fantasia, lisérgica sensação.

- Por favor, será que poderíamos parar um pouco a viagem? Estou tão cansada, queria descansar a mente, o corpo. Nesses últimos dias...
- Não há dias, menina. O tempo está congelado, mas como sua mente se acostumou a calcular e a funcionar em função disso, vou considerar seu cansaço como necessário. Então, que pare!
- Obrigada!
- Não vai questionar nada?
- Sobre?
- O tempo...
- Eu já sabia.
- Impressionante.
- Não é tão difícil, afinal a noite permanece a mesma desde que saímos de beira mar. Seria descuido meu não prestar atenção nisso.
- Você é esperta!
- Eu sei.
- Mas o tempo, não pára.
- Então...
- Ele só pára aqui, com você ao meu lado. Temos a noção perfeita de como funciona o tempo de vocês, o analisamos, e pra ajudar, cada um de nós tem isto.

Tirou de dentro de seu bolso interno, aquele que fazia parte de seu figurino preto de capa grande, para realçar seu visual de má influência, um belo relógio de corrente. Era feito a ouro, perceptivelmente de criação vinda de mãos humanas, mãos antigas, o que me levou a pensar que suas passagens pelo meu mundo também eram antigas.
Conectei algumas coisas, nada particulares, mas estava com o pecado da preguiça me rondando.

- O tempo não existe no Inferno.
- Bonito.

Assunto perdido por uma mera indiferença minha, que não era real, só aparente.

- Aonde você gostaria de ir nesse mundo?
- Essa pergunta pede de mim uma resposta muito extensa.
- Verdade... Aceitarias dormir no deserto?

Naquele momento, eu acordei de excitação.
Um dos lugares era de fato, um deserto, em sua forma noturna, recheada de estrelas! Mas como ele atirou-me uma pergunta desse porte?

- Fala sério?
- Seus olhos brilham tanto! É, apaixonan...
- Vai me levar lá?
- Só se quiser.
- Agora! Sempre!
- Feche os olhos.

Desta vez, graças à excitação, e o agradecimento infinito pela oportunidade, fechei os olhos mais rápido que pude, entrelaçando meus cílios grandes. Começando a contar o tempo do meu mundo, poderia dizer que a voz dele me pediu para abrir os olhos em menos de 2 segundos, o que é relativamente muito rápido, para quem se encontrava a milhas de um local como aquele.

- Pode abrir.

Era um brilho intenso, eram milhões de estrelas, eram mil areias, eram 10 sentimentos. Era o deserto!
Desaprendi a falar. Respirava por ser algo involuntário, mesmo que a felicidade tivesse me tirado todo o ar dos pulmões. Na minha frente eram quilômetros inacabáveis de areia cor de bronze dançando, pra mim. Senti-me pequena, e insignificante diante daquilo tudo. A emoção chegou à forma de lágrimas, devagar como de costume, transcorreram minha face, meu pescoço, e meu busto, até parar de senti-las sobre minha pele. Após ter admirado o meu sonho virar realidade, ali, diante de mim, podendo tocá-lo, resolvi procurar o corpo do homem, para envolvê-lo num abraço demorado, o que talvez o pudesse fazer sentir a minha imensa gratidão, porém não tão imensa quando a minha alucinação.
Ao me virar de costas, a única coisa que vi foram mais quilômetros de areia, e nada mais. Tão simples e tão composto. Deite-me para esperar o dono do abraço, e aproveitando como uma boa aproveitadora comecei a namorar um pouco as estrelas, a fazer juras, mandar pedidos e beijos. Mais acordada do que nunca, os pensamentos começaram a voltar, histórias começaram a se formar, e eu começava a sentir uma grande (e estranha) necessidade de ter o cavaleiro falante perto de mim.
Os ventos mudavam, as areias me encostavam e eu continuava a admirar. É difícil explicar pra você o sentimento que me possuía cada vez mais, mas sei te dizer que ele foi me levando pra longe, cada vez mais, em um ponto ao quais meus olhos viam tudo embaçado e começavam a se fechar sozinhos, estava levitando por entre o mundo real e o mundo dos sonhos. Mas o que é real? Eu tentava resistir, tentava me acordar, mas dessa vez perdi a batalha.
Bem vinda ao mundo dos sonhos, mas de nada serviram as boas vindas.
Não sonhei.
Penso que foi porque estava exausta demais, ou pelo grande frio que me deixava desconfortável ao ponto de virar uma morta viva. Não tinha coragem de abrir os olhos, e pela falta de vestimentas envolvi minhas extremidades pra dentro da areia. Perguntava-me onde estava o encapuzado. Voltei a dormir. Pela segunda tentativa, sonhei com minha imagem, a minha situação momentânea, sentindo frio. Tinha um homem ao meu lado, indecifrável, que começou a me recitar palavras românticas, a me acariciar, e trouxe junto com seu calor e gentilezas, cobertores pesados que pudessem aliviar minhas tremedeiras corporais.

Acordei rápido, bruscamente, como se quisesse provar pra mim que tudo aquilo era verdade. Virei devagar minha face pra o outro lado e a primeira coisa que vi, foram um belo par de olhos vermelhos.

“Queria provar pra mim que tudo aquilo era verdade.”

E era!



Cinco.

- Boa noite!

Arregalando os olhos, reconheci aquela voz, porém não condizia com o corpo que a carregava. Era um homem extremamente encantador, milimetricamente perfeito. Era a imagem do homem dos meus sonhos, de minha vida. Não sabia exatamente suas feições físicas, na verdade, não fazia idéia de como eu poderia saber algo daquele tipo em meio ao deserto, numa noite interminável, sem tempo, sem futuro... Logo nessas horas as coisas se encaixam?

- Eu conheço essa voz! Quem é você? Como veio parar aqui? Ahhhhhhhhh...

Não queria provar mais nada pra mim.

- Estou com frio, vim me aquecer!
- Não estou entendendo nada! Olha, eu estou esperando alguém, não sei se você pode ficar aqui, não quero te expulsar porque realmente esta um frio alucinante nesse deserto...

Olhei para o infinito azulado distraída, e corrigi individualmente que não era o frio que me alucinava.

- Devo ir embora? Não quero causar problemas.

Seus olhos ficaram de um jeito indescritível, como se eu precisasse possuí-los.

- Fique, fique. Mas estou confusa. Você pode me explicar algo significativo pra você estar aqui, comigo?
- Posso. Feche os olhos.
- Não!
- Então não posso te explicar.
- Desculpe, meu coração está muito acelerado. Não consigo parar de fitar seus olhos, eles me deixam hipnotizada. Seria mais complicado ainda fechá-los. Já sentiu que algo se encaixava em você como nada e ninguém?
- Estou me sentindo assim agora.

Tudo foi dito, era muito pouco, mas ao mesmo tempo, uma ótima terapia pra louco.

- Um pouco insano de minha parte, mas, estou sentindo que você é o homem da minha vida...
- Sinto isso há tanto tempo, que se eu te contasse você não creria em minhas palavras.

Sem comentários:

Enviar um comentário